Contos da Piaóba

Madrugada no pântano de Fenokee

Passei hoje o dia atravessando a podridão do pântano de Fenokee. Que caminho desgraçado! Mesmo descendo de barco na cidade portuária de Evergreen ainda são dias atravessando uma quase estrada em meio aos mosquitos desse pântano malcheiroso. Não fosse esse caminho frequentemente usado por outros comerciantes, talvez não houvesse nada além de raízes aéreas, lodo e mosquitos. Infelizmente as plantas obtidas nesse fim de mundo são caras em outros lugares, e as pessoas aqui valorizam muito alguns itens simples como café, facas afiadas, conhaque...

Parei ao meio dia numa das poucas clareiras de terra quase seca para almoçar um pouco do que carrego nas minhas sacolas, por sorte lá tinha um homem com uma gaiola vazia. Era meio branquelo e mirrado e carregava consigo uma gaiola vazia. Não perguntei. Conversamos trivialidades sobre a estrada, e outras coisas. Ele contou várias histórias que supostamente viveu, sobre monastérios e golens, reinos élficos jamais vistos, coisas que não lembro direito, o homem parecia um falastrão de marca maior!

Até que em algum momento matei um mosquito em meu braço, e ele comentou mais uma história... Contou que ele estivera viajando com um mago poderoso, Aldrich seu nome, que era de uma raça demoníaca qualquer, que da mesma forma que nós, quando somos surpreendidos, nos arrepiamos e gritamos, ele soltava um feitiço de fogo. Ora que marmelada, foi o que pensei na hora, e o homem, chamava-se Fustavo, até mostrou umas queimaduras na pele para provar que era verdade. Ele disse que uma mosca do tamanho de uma ameixa pequena tentou picar esse tal de Aldrich, enquanto ele estava distraído. Fato é que ele assustou-se e quando, involuntariamente, soltou o feitiço, aquele pernilongo desgraçado sugou dele todo o feitiço, pois já estava com o probóscide em seu sangue, e cresceu. Ele que era do tamanho de uma ameixa, ficou do tamanho de um pônei, e sua barriga estava luminosa em fogo, e seus olhos brilhavam num vermelho intenso, e então ele saiu voando.

Há, que lorota! Foi o que falei a ele. Fustavo ficou transtornado, de qualquer forma agradeci pelo entretenimento e segui viagem. Antes de chegar à cidade de Fenokee em si, na qual eu iria pernoitar, meu cavalo quebrou a pata numa poça que estava disfarçada na estrada. Tive que dormir em qualquer lugar seco que encontrei. Acordei sobressaltado à noite, calculei que eram 3 da madrugada, com um show de luzes vermelhas não muito longe de onde eu estava. Fui até lá e a cena que vi era absolutamente indescritível. Vi a mosca gigante de fogo do Fustavo. Era enorme, quase um porco, e brilhava do fogo guardado em seu abdômen e olhos. Parecia lutar com algo parecido com um pombo enorme também, com um moicano igual o de uma cacatua. Esse pombo punk já seria surpreendente, mas o susto com o mosquito foi tão grande que nem pensei nisso...

Sei que deveria ter ficado assustado, com medo, mas fiquei maravilhado. Fiquei pensando nas outras coisas que o Fustavo me contou, cidades secretas, golens de arroz... que outras maravilhas do mundo são reais e estão debaixo do meu nariz?